A agroindústria brasileira tem uma tarefa para os próximos anos que é criar tecnologias para aproveitar os resíduos de sua grande produção. Na fonte até agora inexplorada estão, por exemplo, anti-inflamatórios ou antioxidantes para alimentos e cosméticos.  Uva, amendoim, goiaba, tomate são alguns dos potenciais geradores de divisas obtidas a partir de materiais descartados, à espera de pesquisa e processos para extração de bioativos.

“Já sabemos que esses materiais são fontes de compostos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, de grande valor industrial”, afirma Severino Matias de Alencar, pesquisador do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição, da ESALQ Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. O grupo de Alencar trabalha desde 2008 no projeto que estuda resíduos de várias culturas, em parceria com pesquisadores  da Faculdade de Odontologia de Piracicaba, FOP, da UNICAMP, sob a coordenação de Pedro Luiz Rosalen.

Naturais. Exemplo do uso dos resíduos bioativos é visto na indústria de alimentos que utiliza antioxidantes sintéticos para a produção de óleos, gorduras e emulsões. Hoje, o emprego desses componentes não é regulamentado em países como o Brasil e os Estados Unidos. Mas há uma tendência crescente em países europeus de substituir os sintéticos por antioxidantes naturais. Em razão da importância do mercado europeu, quem atender a esse requisito estará em vantagem comercial. “Algumas indústrias têm começado a despertar o interesse por esse tema, principalmente diante de indicações de toxicidade dos antioxidantes sintéticos”, observa Alencar.

Triagem. O projeto cobre um grande número de culturas. Ele cita algumas: resíduos vinícolas (bagaço, borra), bagaços de tomate, goiaba, resíduos de processamento de laranja, açaí, cupuaçu, cevada, graviola, cajá, beterraba, amendoim, café, pimenta. A pesquisa começou com uma preocupação inicial de definir qual a vocação de cada um dos rejeitos. Alguns podem conter substâncias com propriedades antimicrobianas, outros com características antioxidantes ou anti-inflamatória. Identificar essa vocação foi o primeiro passo em busca de aplicações para os resíduos. 

Escala. A etapa seguinte é desenvolver processos que permitam obter as substâncias, não mais em laboratório, mas em escala industrial. Ainda existem muitos gargalos a serem superados, explica, entre eles a padronização dos resíduos, a produção em grande escala e desafios tecnológicos para incorporar esses materiais na formulação de  produtos. A padronização é um item importante e ele cita o tomate como referência. A forma como os resíduos são descartados, e não acondicionados, resulta em propriedades bioativas diferentes em cada local de coleta.

Parceria. Na divisão de tarefas entre os dois grupos, cabe à equipe da ESALQ aperfeiçoar os processos de extração, a caracterização química, isolamento dos compostos bioativos e avaliação da atividade antioxidante. O grupo da UNICAMP dedica-se a estudar as atividades anti-inflamatória, antimicrobiana e citotóxica. Isso reduz o tempo para obter resultados, otimiza recursos humanos e financeiros.

Proporção. Para chegar a produtos finais de interesse da indústria, é preciso que os resíduos estejam disponíveis em grandes quantidades, o que nem sempre acontece. Um dos candidatos com melhores chances nesse quesito é a uva. O país deve produzir, em 2017, 1,3 milhão de toneladas de uva (IBGE) e desse total estima-se que cerca de 30% sejam resíduos, onde estão casca, semente e o engaço (ramificações). Isso significa algo em torno de 390 milhões de toneladas cujo destino pode ser o uso como adubo ou o lixo, na condição de um problema ambiental.

A viabilidade depende também da comprovação científica que começa a se sedimentar, como mostrou a pesquisa de Priscilla Melo, da área de Ciência e Tecnologia de Alimentos da ESALQ. Seu trabalho,  divulgado pela publicação Food Chemistry,  estudou resíduos de uva e constatou elevada atividade antioxidante. O material de pesquisa foram uvas de três castas europeias (Chenin Blanc, Petit Verdot e Syrah ) aclimatadas no semiárido do vale do rio São Francisco. 

Oportunidades. Ensaios feitos pelos dois grupos servem também de indicadores para pesquisas mais amplas, como os que identificaram na película do amendoim a propriedade de retardar a oxidação de produtos cárneos, ou a atividade antimicrobiana dos resíduos de café. Há situações onde o aproveitamento traz vantagens evidentes. É o caso do fabricante que utiliza somente os óleos essenciais do açaí e, depois de extraí-los, tem como resíduos cerca de 95% da fruta.

Há dois destinos principais para essa nova matéria-prima, explica o professor da ESALQ. Ser usada nos alimentos industriais já existentes, como substitutos de ingredientes sintéticos ou componentes funcionais. Outro caminho é ser consumida em cápsulas. A demanda por complementos que retardem o processo de envelhecimento e tornem o organismo menos vulnerável a doenças degenerativas cresce de forma exponencial no mercado mundial.  

Recursos. Hoje a grande preocupação dos pesquisadores dos dois grupos é a interrupção desse trabalho que  torna-se cada vez mais provável. Os sucessivos cortes dos recursos governamentais para a área de CT&I já afetam a continuidade dos projetos. As equipes reúnem alunos de iniciação científica do curso da ESALQ, mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos das duas universidades que dependem de bolsas das agências governamentais. Muito daquilo em que se investiu está sendo sucateado, diz o pesquisador. “O país não sabe o que está perdendo”, lamenta.

Com informações da assessoria de comunicação da ESALQ

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