Vemos uma conjunção de fatores favoráveis para criar uma mudança de grande impacto com o uso das tecnologias de edição genética.

Quem lê as notícias recentes sobre pesquisa e tecnologia na área de genética tem razões para supor que, de fato, chegamos ao limiar de um novo ciclo. Agora, trata-se de algo além de resultados surpreendentes obtidos em laboratório. Vemos uma conjunção de fatores favoráveis para criar uma mudança de grande impacto com o uso das tecnologias de edição genética. Surge, por exemplo, uma abordagem comercial diferenciada para diminuir o custo de desenvolvimento de produtos. As técnicas de edição de genes ganham maior precisão e conseguem reduzir o tempo necessário para realizar tais operações.

Analistas são tentados a ver nesse processo algo semelhante ao que ocorreu com a revolução da microeletrônica nos anos 1970, 1980, cujos desdobramentos mudaram a face de praticamente toda atividade produtiva humana.

Na primeira semana de janeiro de 2018, a empresa de biotecnologia Spark Therapeutics, da Filadélfia, anunciou o lançamento do primeiro medicamento destinado a corrigir a disfunção genética responsável por um tipo de cegueira, conferindo a visão ao portador desse mal. O Luxturna chega com a propriedade de alterar o gene RPE65, é aplicado em uma única dose, e tem um indicador de 90% de sucesso nos testes realizados até agora. (veja notícias aqui, aqui e aqui ) O preço do produto é US$ 425 mil, ou seja, US$ 850 mil para os dois olhos. Estima-se que, nos EUA, cerca de 1000 pessoas sejam portadoras da deficiência. Os executivos da Spark notam que essa linha de terapia genética é objeto de pesquisa há cerca de 20 anos, sem que chegasse aos pacientes.

O lançamento do Luxturna ocorre ao mesmo tempo em que surge uma iniciativa incomum com o propósito de “democratizar” as pesquisas no campo da edição genética. No final de dezembro de 2017, a empresa Inscripta, do Colorado, anunciou que uma enzima para edição genética com a tecnologia CRISP ( veja aqui) estará disponível sem custos para pesquisadores. Ou seja, sem taxas de licenciamento ou royalties sobre os produtos. Para quem utilizar a MAD7 ( este é o nome comercial da enzima, parte da família Madzymes), com fins que não sejam de P&D, isto é, para criar produtos comerciais, terapêuticas e revenda, a empresa cobrará um royalty baixo, de um dígito, bastante inferior aos praticados pela indústria de biotecnologia. Ao ampliar a oferta de novas enzimas dessa família, a Inscripta quer gerar receita com a venda de ferramentas para edição, como softwares, instrumentos e reagentes.

Em meio a vários outros, os dois fatos registram avanços obtidos com a tecnologia CRISP e abrem questões importantes sobre como será esse “novo mundo” que está se formando. Também no final de dezembro de 2017, o site especializado Biofuels Digest aborda essa questão, registrando a iniciativa da Inscripta e indagando quais os desdobramentos dessa evolução. Veja aqui (CRISPR is rocking, Inscripta too, but there is de Coco Chanel problem, ou em tradução livre, CRISPR está agitando, Inscripta também, mas há o problema Coco Chanel).

O que é copyright quando o que está sendo editado é o manuscrito da vida, indaga a reportagem. Quem possui os direitos, quem tem o direito de fazê-lo? Quem tem o poder de dizer sim ou não, quando se trata da alteração de seres vivos? Quem pode alterar o quê? A referência à famosa estilista francesa explora essas dúvidas refletindo sobre até que ponto podem ser feitas alterações em um modelo Chanel para que ele mantenha sua renomada identidade, o que leva a discussão para o campo ético e filosófico.

Outro aspecto que a reportagem levanta vem da comparação com a internet. A rede mundial trouxe a “era de ouro” da informação, oferecendo a milhões de pessoas acesso a dados antes não acessíveis. Mas trouxe também hackers, fake news, vigaristas digitais, invasores de privacidade e outras sequelas. Nem sempre, observa, os ventos que a liberdade desencadeia são amenos e seguros.

Carlos Martins

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