Financiamento coletivo procura apoio para pesquisa e preservação de primata que vive somente na área da Reserva

No último dia 13 de abril, o Instituto Mamirauá, Reserva de Desenvolvimento Sustentável situada na região do Médio Solimões (AM), iniciou campanha de financiamento coletivo (crowdfunding) para o programa de estudo e conservação do macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta (veja site aqui). Trata-se de primata que vive exclusivamente na área da Reserva, em floresta alagada durante parte do ano, no espaço de 870 km2. É considerado o primata neotropical com menor distribuição geográfica. Outras espécies de macaco-de-cheiro habitam amplas extensões, em toda a Floresta Amazônica e na América Central.
Na análise de biólogos e ambientalistas da Reserva, o fato de ocupar uma área assim delimitada torna o primata vulnerável a alterações ambientais na região. A avaliação baseia-se em estudos sobre as mudanças climáticas globais previstas para os próximos anos, que devem alterar o regime de chuvas local, colocando em risco esse habitat.
Além de aprofundar o conhecimento sobre os hábitos do macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta, descoberto em 1985, o projeto tem como objetivo coletar e armazenar material reprodutivo do animal, sêmem e óvulos, para reprodução assistida, caso seja necessário no futuro. Ao mesmo tempo, o trabalho quer continuar o acompanhamento, inclusive com colares de GPS, para análise da movimentação dessa população, estimada em 150 mil indivíduos. O estudo detalhado do macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta (saimiri vanzolinii) vem sendo feito, desde 2006, pela primatóloga Fernanda Paim, cuja tese de doutorado tratou da espécie e suas relações com o ambiente. O financiamento coletivo tem como alvo a quantia de R$ 100 mil reais, montante que representa metade do necessário para sustentação do programa.
O financiamento coletivo foi uma forma de contornar as dificuldades enfrentadas pelo Instituto Mamirauá, organização social ligada ao MCTIC. Os primeiros sinais da crise se manifestaram em 2012 e 2013, mas ela teve seu ápice em 2015, explica o diretor geral do Instituto, Helder Lima de Queiroz. Planejado e dimensionado para atender os termos de seu contrato com o governo, o Instituto defrontou-se com sucessivos cortes no orçamento que obrigaram os gestores a reduzir de forma drástica uma estrutura que foi construída em 19 anos.
“Estas reduções significativas dos valores recebidos nos obrigaram a promover o encerramento de muitas atividades científicas, o fechamento de aproximadamente metade da nossa infraestrutura de pesquisa de campo, e forçou a demissão de 47% dos empregados e cancelamento de mais de 50% das bolsas e estágios”, relata o diretor. Os recursos federais deste ano não conseguirão cobrir nem os salários e a manutenção institucional, observa. “Então o programa de demissões, infelizmente, tem que continuar”.
Criado em 1999, como primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável do país, o Instituto Mamirauá deu forma a um projeto ambicioso de preservação e aproveitamento da biodiversidade da Amazônia. Os dirigentes da organização estimam que durante esse período cerca de 200 mil pessoas tenham sido beneficiadas com ações de pesquisa e manejo de recursos naturais.
Entre as iniciativas de maior impacto está o manejo sustentável do pirarucu, com o objetivo de conciliar a preservação da espécie e o uso produtivo. O retorno são ganhos sociais, ecológicos e econômicos. Segundo os dados da entidade, durante essas duas décadas obteve-se um aumento médio anual do estoque da espécie de 25%. Os ganhos de escala representaram um crescimento que partiu de três toneladas, em 1999, para mais de 650 toneladas em 2017. Isso significou também para as comunidades locais envolvidas com a pesca do pirarucu aumento no faturamento obtido com a atividade, que passou de R$ 10 mil em 1999 para R$ 2,7 milhões em 2017.
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Com informações da assessoria de Comunicação do Instituto Mamirauá