Interface CTI – Dentro de alguns anos, ao pedir financiamento em um banco, o cliente terá também que declarar qual é o seu passivo em emissões de carbono. A previsão é de Tasso Azevedo, coordenador geral do SEEG, Sistema de Estimativa de Emissão de Gases,  órgão ligado a ong Observatório do Clima.  “O sinal é muito claro”, diz, “a gente está entrando em uma nova era em que a matriz econômica será  uma matriz de baixas emissões. Tudo vai ser precificado”

A COP21 Conferência do Clima de Paris, realizada em novembro do ano passado, da qual participaram 190 países, foi um divisor de águas nesse quadro e permitiu ao Brasil tornar mais clara sua situação em relação aos compromissos mundiais, avalia.

Embora esteja entre os dez maiores emissores de carbono do mundo, o país tem uma posição favorável, diz. Suas três principais fontes de emissão, desmatamento, agropecuária e energia, são passíveis de intervenções que permitem acelerar as reduções. “O que aparenta ser um constrangimento pode também ser uma oportunidade para transitar rumo à nova economia”, e uma fonte de oportunidades aos empreendedores, observa. Veja a entrevista.

 Impacto no Brasil. A questão chave é o alinhamento agora existente para limitar o crescimento da temperatura a 2 graus. Com um novo alvo, mais ambicioso, para se alcançar 1,5 graus. Isso significa uma redução muito expressiva na emissão dos gases de efeito estufa nos próximos anos. Estamos falando de redução global, até meados do século, de algo em torno de  70% das emissões atuais. Hoje emite-se cerca de 50 gigatoneladas e vamos ter que chegar em 2050, com certeza abaixo de 20 gigatoneladas. De preferência,  mais próximo de 10 gigatoneladas. O que é bastante,  visto que as emissões ainda estão crescendo.

O Brasil é um dos dez maiores emissores de efeito estufa, embora distante dos principais, que são China e Estados Unidos, depois a Europa inteira. Esse novo acordo significa que as reduções também vão impactar o Brasil.

Oportunidade. As duas principais fontes de emissão do país têm grandes oportunidades de redução.  O desmatamento, que é cerca de 30% das emissões (em 2004 representava 60%). A agropecuária, cerca de 25% e depois vem energia com 20% das emissões . Se zerarmos o desmatamento, se aumentarmos a produtividade na agropecuária, teremos  um salto importante e, ainda, bastante espaço para as energias renováveis. ]

Isso que aparenta ser um constrangimento com a redução das emissões pode também ser uma oportunidade para transitar o mais rápido possível para uma economia de baixo carbono.

Como se dá o controle desse processo?

São várias coisas. Primeiro, há aspectos da alçada dos próprios empreendimentos, direcionados por elementos regulatórios. No caso do desmatamento, controla-se o desmatamento ilegal, a maioria está na Amazônia. Coibir é uma tarefa governamental, mas o finalizar, o parar, é uma tarefa privada. É essencialmente feito por atores privados.  O governo tem um papel nesse caso, de controle. Por outro lado tem instrumentos, como o crédito, subsídios, para poder forçar ou direcionar as atividades de forma que não envolvam o desmatamento. Se você quiser ligar o crédito agrícola ao desmatamento, está usando um instrumento de política pública para forçar o comportamento. Existem os planos setoriais para a economia de baixo carbono, mas nestes últimos anos de governo Dilma eles andaram meio devagar.

Empresas. Agora, as empresas também podem trabalhar no campo da oportunidade. No caso da pecuária, a emissão acontece pela fermentação entérica (processo digestivo dos ruminantes), dos animais, a emissão direta, mais a emissão pelo capim.

Hoje, faz-se pastoreio extensivo, em larga escala no Brasil, com pouco cuidado com o solo. Isso faz com que a área de pastagem se degrade e ao se degradar ela perde carbono do solo. Está emitindo carbono. Se mudar a forma de manejar a pastagem, para ter o pasto de melhor qualidade ele começa a conter carbono, a sugar carbono e fixá-lo no solo.

Se eu tiver 60 milhões de hectares de pasto (degradado) estarei emitindo 60 milhões de toneladas. Mas esse mesmo pasto, tocado em alta produtividade, vai capturar 180 milhões de toneladas. Então isso é até capaz de compensar as emissões da pecuária.

Produtividade agrícola. Por que isso é interessante para a atividade econômica? Porque significa melhorar a produtividade, você produz mais carne, mais leite por hectare. Esse é o processo que está em curso atualmente.

Há várias frentes sendo trabalhadas. A da tecnologia, com pacotes tecnológicos hoje gerados pela Embrapa; ou novas tecnologias para fazer a rotação de pastagem, correção do solo. O resultante final é que, ao fazer uma recuperação de pastagem, o produtor aumenta a produção. Ao invés de um animal por hectare pode ter dois, três. E com isso  aumenta a rentabilidade por área . Oportunidades como essa existem em vários setores.

Indústria. Os dois principais setores industriais que emitem CO2 são siderurgia e cimento. Não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Como atividade econômica, transporte é o principal emissor.

Cimento é uma emissão intrínseca, você usa energia para aquecer o calcário, aí quando  aquece ele perde o CO2 e vira cal. No modo atual, para produzir cimento você necessariamente gera emissões. A forma de reduzir é usar menos clínquer e aumentar os aglomerantes e outras cargas que você utiliza. São tecnologias que já existem, mas há muita coisa sendo desenvolvida e muita coisa para regulamentar. Há muitos trabalhos sendo feitos nessa área, mexendo na composição do cimento e na eficiência energética.

Siderurgia. No caso da siderurgia, além da eficiência energética, o Brasil tem uma condição especial porque é o único país do mundo em que existe experiência, em escala comercial, da utilização de carvão vegetal, de plantações florestais, em substituição ao carvão mineral. É uma grande oportunidade tecnológica, porque isso não é viável nos outros países. Já temos tradição de fazer isso, desde os anos setenta, para o aço longo. Mas não temos exemplos disso em aço plano, o aço que faz linha branca  e automóveis. Porque o processo de fabricação do aço longo usa alto forno e quando você põe carvão vegetal nesse tipo de forno, o carvão esfarela. Quando usa carvão vegetal tem que usar fornos baixos. Mas existe uma avenida de possibilidades, para se trabalhar, para se ter, por exemplo, aço de baixa emissão de carbono, que é o que vai se buscar nos próximos anos no mundo.

O Brasil tem aumentado as emissões na geração de eletricidade nos últimos anos por conta das termoelétricas, mas há grandes possibilidades a serem exploradas nas novas energias renováveis, como no caso da biomassa, da solar e da eólica. Eu mesmo instalei  aqui, dois meses atrás, um painel solar, para ser autônomo em energia. É uma startup que começou há dois anos instalando sistemas nas casas das pessoas.  Então, eu acho que isso que vai ser esse mundo. Vai lidar com esse tipo de novas energias e isso está sendo muito rápido. Esse é um mundo que vai ser conduzido por inovações, pela capacidade de inovar. Onde é que vai surgir uma alternativa ao cimento?

Os pequenos empreendedores vão atuar nesse cenário? Já estão atuando. A questão é o quanto vão ser estimulados e incentivados. O Brasil não é um país muito amigável para startups. Tem um grau de burocracia que mata o sujeito antes de ele conseguir existir. Tem que reinventar a forma de fazer essas coisas. Você vê startups nos EUA que começam, recebem o investimento, depois de dois, três anos, é que vão montar a empresa, até lá você é um projeto. Nós temos esse problema no Brasil, muita criatividade, muito potencial e um emaranhado que desvia as pessoas do core do que ele quer fazer para poder colocar uma empresa em pé.