InterfaÁgua_29_03ce CTI – Graças à capacidade de se reproduzirem rapidamente, de serem eficientes na captura de CO2  e de oferecerem nutrientes de alta qualidade, as microalgas tornaram-se uma atraente possibilidade de  inovação. As tecnologias para utilizá-las vêm avançando em áreas como  biocombustíveis, remediação de efluentes industriais ou produção de insumos para alimentação animal. As duas últimas estão no foco atual da Algae Biotecnologia empresa instalada no Parque Tecnológico de Piracicaba (SP) que espera, em 2016, passar da fase de investimentos para estender sua presença como uma das fornecedoras pioneiras  de biomassa de microalgas (organismos unicelulares, com tamanhos que podem ser de milésimos de milítmetros, dos quais existem milhares de espécies na natureza, algumas com capacidade de realizar fotossíntese)

        O cenário é favorável para isso, aponta o diretor da Algae, Sérgio Goldemberg, agrônomo pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz,  Esalq USP. Criada em 2009, com apoio da Finep e do  BNDES, a Algae implantou nesse período seu laboratório e uma planta piloto inicial. Em uma segunda fase, neste ano, o plano é quintuplicar a capacidade da planta piloto, para chegar a uma produção de 120 metros3 de biomassa. “Conseguimos vencer aquela primeira etapa de sair do laboratório para a planta piloto”, observa. Estamos exatamente nesse momento, de passar de desenvolvedor tecnológico para fornecedor  do  mercado.”

        A empresa seguiu o caminho de outros empreendedores do mercado internacional que decidiram apostar nas microalgas quando o mundo está em plena revisão de suas fontes de energia e alimentos . Em um primeiro momento, lembra, grande parte dessas empresas tinha como objetivo produzir biocombustíveis. “Com o passar dos anos começou-se a perceber que essa era uma rota difícil, não do ponto de vista técnico, mas econômico. Seria difícil produzir um combustível a preços competitivos.” Assim  parte delas alterou o roteiro e o interesse voltou-se para a remediação de efluentes industriais e nutrição humana e animal, duas áres contempladas no modelo planejado pela Algae.

“Conseguimos vencer aquela primeira etapa de sair do laboratório para a planta piloto”, observa. Estamos exatamente nesse momento, de passar de desenvolvedor tecnológico para fornecedor  do  mercado.”

 

Mundial

        O movimento em direção às microalgas é mundial. Em 2014, o Joint Reserch Centre, órgão de estudos da União Europeia, publicou  relatório sobre produtos baseados em microalgas, para os setores de alimentação humana e animal na Europa (veja aqui). O trabalho diz que, embora ainda seja pequeno, o mercado vem crescendo de forma significativa desde 1999, quando apresentava um volume de mil toneladas de produtos secos.  Em 2004 ele já era cinco vezes maior ( 5 mil toneladas) com valor de 1 bilhão de euros. E chegou  a 2011 com 9 mil toneladas. Segundo o levantamento, o mercado global de biotecnologia marinha, que tem nas microalgas seu principal componente, é estimado em 2,4 bilhões de euros. O relatório assinala que nas últimas décadas, 75% do volume de produção de microalgas é destinado ao segmento de alimentos para saúde, como suplementos para  dietas.

        Nos Estados Unidos, o estudo e desenvolvimento de tecnologias para algas, onde se incluem as microalgas, são feitos por cerca de 50 instituições de pesquisa e 100 empresas, mostra o site All About Algae (veja aqui) mantido ela Algae Biomass Association (veja aqui), entidade criada em 2008 por órgãos do governo e companhias privadas.

Adaptação

        A propriedade de se reproduzir rapidamente é o diferencial decisivo desse tipo de organismo unicelular, lembra o diretor da empresa. E ilustra: se pegarmos um tubo de ensaio com microalgas, em três a quatro dias elas estarão ocupando o volume correspondente a um recipiente de cinco litros.   

        Em seu laboratório, a Algae mantém uma coleção de espécies de microalgas, resultado de coletas e estudos. “Pegamos uma espécie adaptada e há todo um trabalho de melhoramento, de aclimatação, porque existem espécies apropriadas”, para objetivos determinados, explica. Se for o caso de fazer um projeto para um frigorífico procura-se uma espécie que já exista naquele ambiente,

        A fase inicial na busca de receitas é a prestação de serviços. A Algae atua em dois projetos com soluções voltadas para o meio ambiente. Um deles com a Intercement , holding da Camargo Correa para o segmento de cimento e  concreto. Trata-se da biofixação de dióxido de carbono emitido pela indústria cimenteira. O alvo é a mitigação das emissões de CO2 com o uso de microalgas, iniciativa promissora já que a Intercement  tem fábricas no Brasil, na Europa e na África. O outro projeto é para a Brasil Kirin,multinacional instalada no Brasil e dona da marca Schincariol,  e visa a reutilização dos efluentes líquidos da indústria de cerveja.

        Outra frente é a parceria da empresa com o Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de São Carlos, UFSCar, para o cultivo de microalgas em vinhaça,  subproduto do etanol altamente poluidor, empregando esse mecanismo para fazer biocombustível.

Alimentação

        Há vários caminhos para a utilização da biomassa de algas na nutrição animal que deverão ser explorados nos próximos anos, diz ele. Na aquicultura, a produção de peixes e camarões cresce a taxas expressivas, independente do momento econômico. Mas a equação entre produção e consumo é insustentável a longo prazo.  Um dos insumos básicos para essa atividade, a farinha de peixe,  tende a tornar-se cada vez mais caro e de difícil obtenção. O exemplo mais marcante é o do salmão, cuja produção necessita da farinha de peixe. Para obtê-la a indústria salmoneira do Chile mantém como atividade paralela a pesca da sardinha, que é processada e utilizada na alimentação do salmão. “É preciso procurar alternativas para isso e as microalgas caem como uma luva”, diz Goldemberg. Mesmo introduzida em pequenas quantidades, a microalga com seus nutrientes pode reduzir a necessidade desse componente, inserindo uma variável positiva do ponto de vista ecológico.

        Avicultura e suinocultura são outros segmentos candidatos a se beneficiarem da  microalga, com crescente número de pesquisas a respeito. Na avicultura a biomassa não teria a função de compor a a ração mas pode oferecer compostos, como os carotenoides que atuam como antibióticos para o animal. Nesse cenário em construção, a Algae interage com o mercado para descobrir também o modelo de negócios que melhor conjugue interesses seus e dos clientes, e que poderiam envolver trnansferência de tecnologia, operação nas unidades do cliente ou outras.

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