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CartuchoVIT poderá substituir ou complementar a ação de inseticidas químicos. 

Levar um produto biotecnológico ao mercado requer capital, conhecimento científico e tempo. Mas, além disso, exige criatividade, afirma Paulo César Bittar, diretor da VR Biotech, de Uberaba (MG). A empresa  se prepara para lançar, este ano, o CartuchoVIT, destinado a combater a lagarta-do-milho, ou lagarta-do-cartucho, tradicional inimiga da segunda maior cultura agrícola do país. Outra competência importante, diz, é capacidade de articulação, pois a trajetória do produto envolveu a participação de cinco  instituições.

A recompensa desse trabalho é conquistar um lugar no ainda reduzido grupo de produtores de insumos para controle biológico de pragas. Área promissora, que compete ou divide espaço com os  inseticidas químicos, com previsão de crescimento de 15% a 20% nos próximos anos, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), que reúne 50 associados. A lagarta-do-cartucho pode trazer perdas entre 34% a 52% para o grão , além de afetar outras culturas como soja e sorgo.

O desafio da VR Biotech para chegar ao CartuchoVIT foi desenvolver uma estrutura industrial de produção para que o  vírus Baculovirus spodoptera, que ataca a lagarta, possa ser utilizado pelo agricultor, em forma de calda, aspergido sobre a plantação. Isso significa reproduzir em grande escala, para demanda comercial, o vírus com todas as características biológicas que apresentou na bancada do laboratório. Assim como criar uma metodologia e um conjunto de processos até então inexistentes. O vírus foi descoberto e identificado pela Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e fornecido para a VR Biotech. Paulo César Bittar, farmacêutico, é proprietário da Vitae Rural, que produz medicamentos homeopáticos para a pecuária.

Veja a entrevista.

Interface CTI. Quais são as etapas de produção do vírus?

Paulo César Bittar – As etapas de produção envolvem a criação de mariposas adultas,  obtenção de ovos, obtenção de lagartas sadias (estado larval) e a inoculação de vírus por ingestão nas lagartas criadas; tempo de crescimento de lagartas infectadas para que se aguarde a multiplicação de vírus em seu corpo e o processamento das lagartas mortas por vírus para que se obtenha o produto final na forma de pó molhável. Também é necessário que se produzam dietas específicas para a alimentação das lagartas nos vários estádios de produção Parte-se de exemplares adultos da lagarta Spodoptera frugiperda e se utiliza uma linhagem específica do Baculovirus spodoptera.  O tempo é função das condições de criação, de fabricação e do ciclo da lagarta. Pode-se pensar em cerca de 30-35 dias

ICTI – Quais são as dificuldades para chegar à produção industrial?

Paulo César Bittar– A passagem da produção em bancada para a escala industrial é bastante crítica. Isso porque trabalha-se com algo que nunca foi feito. O que invoca a solução de centenas de pequenos problemas relacionados com a marcha da produção. E de alguns grandes problemas, para os quais não se tem equipamento ou utensílio no mercado para superá-los. Criatividade é a palavra mágica. Muita coisa tem que ser criada, desenvolvida e implantada após validação. A VR Biotech criou sua própria metodologia de fabricação.

ICTI. Você disse que o processo hoje incorpora uma inovação obtida pela Embrapa. Qual é?

Paulo César Bittar Normalmente qualquer lagarta-do-cartucho infectada por Baculovirus possui seu tegumento, seu corpo, desmanchado, liquefeito. Isso porque em geral a lagarta-do-cartucho tem a pele rompida por proteínas geradas por esses vírus. A Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas-MG, mudou esse quadro através de uma importantíssima inovação. O pesquisador Fernando Hercos Valicente, depois de muitos anos de prospecção de diferentes isolados de Baculovirus spodoptera, conseguiu no Paraná, uma linhagem que não tinha a característica de liquefazer o corpo das lagartas. Qual a importância deste fato? É que industrialmente, pode-se coletar lagartas inteiras de forma dez vezes mais rápida que coletar lagartas liquefeitas. O que proporciona grande aumento de produtividade industrial.

ICTI – Como o agricultor utiliza o produto?

Paulo César Bittar – O produto deve ser aplicado após dispersão em uma calda, como a maior parte dos produtos da agricultura, à razão de 50 gramas por hectare, utilizando-se no máximo, de 150 litros de água por hectare. Deve-se ter atenção especial para o pH da calda, que em hipótese alguma pode ser alcalino. E a aplicação deve ser feita após as 16 horas, para maximizar sua ação, já que os raios ultra violeta do sol provocam danos e podem inativar os Baculovirus. No mais, estes se mostram muito resistentes a solventes e no solo. Em geral, espera-se apenas duas aplicações por safra.

ICTI – O que levaria o agricultor a optar pelo controle biológico ao invés do inseticida químico?

Paulo César Bittar – Os inseticidas químicos possuem grande efeito imediato. Mas infelizmente, por uso irracional, vão para a mesa das pessoas. Provocam o aparecimento de insetos resistentes aos próprios inseticidas químicos e são devastadores contra a fauna local. Muitos dos seres mortos por inseticidas químicos matariam pragas, que sem seus inimigos naturais vão provocar infestação nas culturas, transformando assim pragas anteriormente com pouca importância em pragas principais, via desequilíbrio do ecossistema. O controle biológico é muito eficiente e ao mesmo tempo, ecologicamente muito mais brando. No caso do CartuchoVIT, não há qualquer possibilidade de danos às pessoas pelo Baculovirus spodoptera. O ecossistema se restabelece. A fauna, a flora, os trabalhadores do campo, as nascentes de água e os rios são preservados de contaminação química. Os pássaros voltam às propriedades e ajudam no combate às pragas.

ICTI – Além da Embrapa, vocês estabeleceram vínculos com outras instituições. Quem são elas e qual sua participação?

Paulo César Bittar –  A Universidade Federal do Triângulo Mineiro, UFTM, contribuiu através do programa RHAE, do CNPq, com três professores doutores nas áreas de microbiologia, biologia molecular e química. O Instituto Federal do Triângulo Mineiro, IFTM, com seus docentes e discentes e áreas para teste. A interação universidade e empresa tem sido muito produtiva.  Com o SENAI e FINEP tivemos apoio financeiro. O Edital do SENAI Inovação, através do SENAI de Uberaba, permitiu consultorias em diversas áreas como a gestão de utilização de água industrial, geração de energia alternativa e construção de equipamentos customizados.

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