“Estamos no início, mas as sementes já estão brotando.” diz o biólogo Diego Wilke, da Universidade Federal do Ceará, UFC, coordenador do Laboratório de Bioprospecção e Biotecnologia Marinha, LABBMar. Ele se refere ao papel fundamental da pesquisa ao formar quadros para uma atividade que pode gerar ao país ganhos valiosos no futuro.

O Laboratório é um posto avançado em uma área de grande potencial, mas na qual o Brasil ainda conta com um reduzido número de grupos de pesquisa. Wilke lembra que o trabalho sistemático com organismos marinhos é relativamente recente no país. Teve início nos anos 1990 a partir da curiosidade dos químicos, aos quais se juntaram biólogos e ecologistas. A chamada Amazônia Azul ou Zona Econômica Exclusiva, faixa oceânica sob jurisdição do Brasil, corresponde a uma área de 3,6 milhões de quilômetros quadrados, pouco explorados pela ciência.

A pesquisa em busca de novos fármacos tem interesse crescente nos produtos naturais marinhos. A enorme quantidade e diversidade dos “sucessos” obtidos pela natureza para assegurar a vida de alguns desses organismos constituem um gigantesco banco de dados científico. Animais, plantas ou microrganismos do mar, com frequência enfrentam situações ambientais marcadas por elevado grau de exigência biológica, em cenários de intensa competição. Por isso produzem respostas químicas peculiares, exclusivas, e de grande potência, com características diferentes das existentes na biodiversidade terrestre.

Enquanto a pesquisa de produtos naturais feita em ambientes terrestres se vale do saber tradicional para ter indicações de bioatividade, (chás, pomadas), a pesquisa no mar se orienta por hipóteses formuladas a partir da observação. Assim, aquele pequeno organismo invertebrado que parece tão vulnerável pode ser dotado de eficientes defesas químicas e bioquímicas que lhe asseguram a sobrevivência.

Nesse ambiente, “encontramos uma altíssima variedade de moléculas especiais, que não estão relacionadas com as operações bioquímicas básicas, de metabolismo primário. São os metabólitos secundários, moléculas que conferem vantagens aos organismos que as produzem”. Elas desempenham funções como atuar na comunicação química, inibir a incrustação, proteger contra a radiação ultravioleta, conferir sabor repugnante ou apresentar um componente tóxico contra os predadores.

Em geral, observa, os tratamentos químicos contra câncer baseiam-se em substâncias citotóxicas, isto é, que causam a morte das células tumorais. A pesquisa usa modelos reduzidos de células tumorais cultivadas in vitro no laboratório e realiza experimentos com extratos, frações e substâncias puras. A partir daí identifica a presença de compostos citotóxicos que inibam o crescimento ou matem células tumorais. É possível também determinar a potência, a concentração necessária para produzir o efeito desejado da ação antitumoral. É comum que as moléculas de fontes marinhas sejam muito potentes, produzindo efeito citotóxico em concentrações muito baixas.

Um dos resultados do trabalho do LABBMar é o inventário de microrganismos obtidos de invertebrados e sedimentos marinhos coletados na costa e nas ilhas oceânicas brasileiras, que ele considera um “tesouro criopreservado e catalogado” (veja aqui, no site do LABBMar). Já foram isoladas e identificadas dezenas de moléculas citotóxicas em extratos destes microrganismos marinhos, informa. E lembra que isso foi possível graças à atuação conjunta de biólogos e químicos: as pesquisadoras Letícia Costa Lotufo, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, sua orientadora, Paula Christine Jimenez do Laboratório de Bioprospecção de Organismos Marinhos, da UNIFESP, Otília Pessoa e Edilberto Silveira, do Departamento de Química Orgânica da UFC,

Entre as estratégias de pesquisa adotadas está a identificação de substâncias que podem atuar como linha auxiliar aos tratamentos já consagrados da quimioterapia. Hoje estão em fase inicial dois desses projetos. Um deles estuda a molécula piericidina A. Caracterizada ainda na década de 1960, ela ganhou importância nos estudos da equipe do Laboratório por sua capacidade de atuar sobre células tumorais do tecido epitelial, reduzindo a respiração celular, mesmo em concentrações muito baixas. Esta característica a tornaria indicada para atuar em conjunto, reforçando o papel de outros quimioterápicos.

Outra linha de trabalho identificou moléculas inéditas, isoladas em algas, que apresentam características similares ao ômega 3 e propriedades anti-inflamatórias. Aqui abrem-se duas possibilidades terapêuticas: aumentar a efetividade dos tratamentos ou reduzir os efeitos negativos dos quimioterápicos convencionais.

Formada por seis pós-graduandos e nove alunos de iniciação científica, a equipe de farmacologia do LABBMar integra a rede de pesquisas do INCT BioNat, Biodiversidade e Produtos Naturais. Isso significa que esse trabalho é amplificado com a troca de conhecimentos com outros grupos, nacionais e internacionais.

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