Ele é destaque na pauta de exportações. Em 2018 o país exportou 220 mil toneladas de melão, sucesso comercial que recebe constante apoio da pesquisa brasileira. Hoje essa pesquisa se empenha também em reduzir as perdas causadas por agentes patógenos que atacam o fruto.
A mais recente aliada nessa tarefa é a inovadora tecnologia de luz ultravioleta pulsada, UVp. Ela elimina ou reduz as sequelas causadas por fungos que atacam o meloeiro durante o período de plantio, mas cujos efeitos só aparecem na fruta depois de colhida.
O uso da tecnologia de UVp com essa finalidade é conhecido na literatura científica, mas sua aplicação é recente, relata Guilherme Zocolo, pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical, em Fortaleza (CE), e participante do INCT BioNat. Químico formado pela Universidade Federal de Viçosa, UFV, ele integra a equipe do projeto de pesquisa, iniciado em 2016, que estuda fungos responsáveis pelas doenças do melão.

“É um processo ‘limpo’ com a vantagem de dispensar ou reduzir o uso de defensivos agrícolas normalmente utilizados”, um movimento em direção à bioeconomia.

Ele explica que é impossível identificar as frutas contaminadas, antes da doença se manifestar. Assim, a UVp é aplicada em todo o lote de melões. A luz ultravioleta elimina os microrganismos patógenos e desperta os mecanismos de defesa da planta mesmo no período pós-colheita. “É um processo ‘limpo’ com a vantagem de dispensar ou reduzir o uso de defensivos agrícolas normalmente utilizados”, um movimento em direção à bioeconomia. Concluído em julho do ano passado, o projeto coloca hoje a tecnologia de UVp à disposição dos produtores e começa a receber atenção dos grandes produtores.

Entre os candidatos a saltar da condição de alimento para a de gerador de produtos industriais estão também o cajá e o umbu.

A pesquisa com frutas têm, entretanto, vários outros caminhos. Muitos deles partem do ativo que a Embrapa acumulou nos últimos 40 anos, e têm seu ponto de origem em um dos 190 bancos de germoplasmas mantidos pela empresa em vários pontos do território. São considerados germoplasmas as partes da planta que conservam material hereditário de uma espécie. Os bancos podem estar em laboratórios, com partes das árvores conservadas, ou são constituídos por árvores vivas. O banco de germoplasmas do caju, por exemplo, em Pacajus (CE), abriga cerca de 900 árvores vindas de vários pontos do Brasil e de outros países. Ali são registradas e monitoradas todas as características da planta. “Estamos mapeando quimicamente esses bancos de germoplasmas”, informa. E cita um exemplo de como se dá o retorno dessa pesquisa. O ácido anacárdico, presente no líquido da castanha do caju, é um produto de alto valor no mercado internacional. Pode ser empregado na indústria automobilística para a obtenção de resinas e em outras áreas, como a farmacêutica. A análise química das plantas que compõem o banco de germoplasmas do caju permite encontrar aquelas variações que produzem maior quantidade de ácido anacárdico. Com base em tais informações os melhoristas genéticos do banco, através de cruzamentos, buscam clones com maior capacidade para produzir ácido anacárdico, alimentando essa fonte de exportação. Da mesma forma, o processo torna possível chegar a exemplares mais adequados para a fruta de mesa ou a que vai produzir suco.
Entre os candidatos a saltar da condição de alimento para a de gerador de produtos industriais estão também o cajá e o umbu. A folha do umbu e o cajá vêm sendo estudados em razão de apresentarem compostos com atividade anticâncer. O cajá, ao mesmo tempo, é objeto de uma linha de pesquisa desenvolvida nos últimos anos, e agora em seu estágio final, que deverá resultar em um medicamento para reduzir os efeitos da herpes.
Guilherme Zocolo considera que o trabalho de pesquisas em rede, como o realizado pelo INCT BioNat, vem fortalecendo a ciência no país já que a interação com outros pesquisadores tende a potencializar o trabalho de cada um. Pós-graduado em Quimica na Universidade Estadual Paulista, UNESP, ele acrescenta a essa experiência o curso de Química de Alimentos feito na Universidade de Münster, na Alemanha. O perfil de especialista em Química de Produtos Naturais conta também com o domínio das tecnologias de cromatografia e espectrometria de massas, assim como com o desenvolvimento de projetos nas áreas de metabolômica, resistência à seca, engenharia agrícola, solos e engenharia de alimentos.

Autor: Carlos Martins

Veja outras reportagens do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Biodiversidade e Produtos Naturais, INCT BioNat, aqui