Criado em julho de 2018, o centro de desenvolvimento Biotechtown, de Belo Horizonte, apoia hoje nove empresas nascentes das áreas de biotecnologia e ciências da vida, com uma abordagem diferenciada no cenário da inovação no país. A proposta é integrar vários componentes necessários para o desenvolvimento – mentorias, treinamento, financiamento, rede de contatos, laboratórios – para que as empresas possam transpor a fase mais difícil de nascimento e consigam se estabilizar no mercado. Três delas relatam na reportagem como vem sendo esse processo e suas expectativas de crescimento.
A Jade Autism mantém um portal web com jogos destinados a crianças autistas ou portadoras de outras limitações. Os resultados dos jogos permitem a terapeutas e pais analisarem e acompanharem o tratamento das crianças. O Laboratório da Cerveja tem uma grade de serviços especializados para cervejarias. Fornece análises microbiológicas e produz leveduras. A Oncotag se desenvolveu a partir das pesquisas da bióloga Letícia Braga na área de oncologia experimental. Ela criou um serviço que analisa características genéticas de pacientes submetidas a cirurgia de câncer de ovário. Com isso os médicos dispõem de informações mais precisas para decidir sobre a conveniência de adotar quimioterapia como tratamento.
Jade Autism
Os sócios Ronaldo Cohin e Marcus Cunha tinham uma preocupação ao transformar os jogos e os decorrentes relatórios em um negócio: definir a melhor forma de gerar receita e sustentar a evolução, levando em conta o ambiente que rege oferta de serviços de saúde, assim como as normas dos órgãos regulatórios.
Cunha, diretor Operacional, relata que quando se inscreveram no edital aberto pela Biotechtown, a empresa ainda não tinha atividade comercial. Os relatórios produzidos a partir dos jogos eram uma “solução social”, isto é, gratuita, mantida pelos dois empreendedores que atuavam em outras áreas. Uma motivação particular para a iniciativa é o fato de Ronaldo Cohin, CEO da empresa, de Vitória (ES), ser pai de uma criança autista. O web site, além disso, exigia investimentos para se tornar mais operacional.
A interação com as equipes da Biotechtown formatou ideias já em elaboração e abriu discussões para encontrar novas respostas, diz Cunha. Um resultado importante foi viabilizar a ideia de cobrar pelos relatórios gerados pelos jogos tendo como clientes os terapeutas que tratam as crianças. Os dados são uma ferramenta para terapeutas acompanharem a evolução do paciente ou alterarem estratégias de tratamento. Outro caminho para obtenção de receita foi estabelecer assinaturas do portal para que pais interessados tenham acesso aos relatórios. O programa de desenvolvimento da Jade Autism recebeu também recursos financeiros da Biotechtown para o aperfeiçoamento técnico do portal.
Atualmente, entre os clientes da Jade está a Federação das APAES do Espírito Santo, que vai dispor os jogos em 42 unidades do Estado. Ofertados em três línguas, português, inglês e espanhol, os games registram 35 mil downloads em telefones celulares e tablets, no Brasil e no exterior.
Na divisão de trabalho dos sócios, Ronaldo Cohin permanece em Vitória e Marcus Cunha estabeleceu-se no espaço de coworking do centro de desenvolvimento, experiência que considera muito positiva. A convivência permite partilhar informações com outros empreendedores e até mesmo ter acesso a investidores. “Nunca me imaginei em um projeto como esse”, diz Cunha, cuja vida empresarial estava ligada ao setor de moda.
Laboratório da Cerveja
A empresa é fruto do projeto de extensão universitária das biólogas Luciana Brandão e Beatriz Borelli, no Instituto de Ciências Biomédicas, ICB, da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG. A startup empenha-se agora em ganhar fôlego em um mercado afluente no qual cresce o número de cervejarias artesanais que podem se beneficiar da capacidade de inovação da universidade.
“Para a gente foi um desafio enorme”, afirma Luciana Brandão, diretora do Laboratório. Ela se refere ao empenho necessário para sair do âmbito da Universidade, como pesquisadora, e chegar a uma empresa estruturada, que precisa de agressividade para realizar vendas. Na prática, isso significou elaborar um plano de negócios, definir a estratégia de marketing, criar condições para prestação de serviços aos clientes e para produção das leveduras, dentro das exigências comerciais.
Além das qualificações, a empresa conta com um cenário favorável. Luciana constatou, ainda na Universidade, que muitas cervejarias precisam de serviços de controle de qualidade e análises microbiológicas. Atualmente, observa, existem cerca de mil cervejarias registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, MAPA, Entre elas centenas de cervejarias artesanais criadas nos últimos anos. É natural que esses agentes procurem apoio técnico e científico para aprimorar seus produtos e ganhar qualidade..
Outro foco é a venda de leveduras, insumo básico para a produção, que dá identidade à bebida, com diferenciais marcantes para sua aceitação pelo consumidor. A levedura é responsável pelo álcool e gás carbônico e confere atributos sensoriais, como sabores especiais. O conhecimento obtido com a pesquisa na Universidade permite trabalhar com leveduras líquidas, ao invés de secas, o que dá mais opções quanto à variedade de linhagens e permite reduzir os tempos de fermentação, explica. O vínculo com a UFMG e seus laboratórios abre também um caminho promissor para a criação de leveduras exclusivas, com características brasileiras, voltadas para as preferências das cervejarias nacionais.
Oncotag
A sequência de pesquisas da pós-graduação nas Universidades Federais de Minas Gerais (UFMG) e de Uberlândia (UFU) levou a bióloga Letícia Braga a se concentrar nos dados colhidos de 45 pacientes que realizaram cirurgias de câncer de ovário. A análise genética do material obtido conduziu a uma constatação. O perfil genético, ou o que os especialistas chamam de “expressão gênica”, está relacionado com a maior ou menor capacidade de recuperação e tempo de vida das pacientes, pós-cirurgia. Decorrência do estudo é que, com essas informações é possível saber, em uma escala, se a paciente reagirá positivamente ao tratamento quimioterápico ou se ele não terá efeito. Indicativo importante para o médico decidir sobre outro caminho a ser seguido. O conhecimento resultou em um “produto”, com previsão de ser comercializado a partir de setembro deste ano, que é o “exame molecular para avaliação de prognóstico de pacientes com câncer de ovário”. O sistema de análise dos genes, que empregou recursos de inteligência artificial, envolveu uma equipe formada por duas biólogas, dois médicos e dois cientistas de computação e bioinformática.
“Nós somos técnicos”, enfatiza Letícia, falando sobre o ingresso da Oncotag na Biotechtown. “A gente não sabia sobre essas questões, sobre estratégia de ir para o mercado, como que o médico solicita, como que o paciente compra…”.
Além dos treinamentos e mentorias, o centro de desenvolvimento realizou investimentos na empresa nascente dirigidos a atividades como marketing, construção de web site e outras. Pelo modelo adotado, esse capital dá direito de opção à Biotechtown de participar como sócia do empreendimento no futuro. Ao mesmo tempo, a Oncotag vem estabelecendo uma rede de parcerias para sustentar suas operações. A primeira delas, firmada ainda no período da Universidade, foi com a empresa Thermo Fischer, fornecedora de insumos científicos utilizados pela empresa. Apoio que a pesquisadora considera como ativo muito importante e que facilitou a entrada no Biotectown. Outras parcerias em formação são com o Insituto Mário Penna e o complexo hospitalar São Francisco, ambos hospitais de Belo Horizonte que atendem o Sistema Único de Saúde, realizam cirurgias de câncer e ovário e aplicam quimioterapia.

Carlos Martins