Adequação ao bolso do agricultor, avanço das tecnologias e pesquisa são requisitos para o desenvolvimento da área nos próximos anos

O atual estágio da agricultura de precisão pode ser comparado com o da medicina, trinta anos atrás. O médico fazia, então, o diagnóstico com base nas informações obtidas no contato com o paciente e prescrevia os medicamentos. Hoje, ele solicita exames, e depois de analisá-los, com base em dados mais objetivos, faz o diagnóstico. “A agricultura de precisão vai passar por esse processo. Eu preciso medir mais, muito mais, para tomar decisões assertivas”, explica o engenheiro agrícola José Paulo Molin (foto), presidente da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão, AsBraAP. A entidade realizará, no próximo dia 23 de setembro, a primeira edição do Simpósio Regional de Agricultura de Precisão e Digital, em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso. (Veja aqui a programação)
O evento é um ponto na linha de evolução para a qual convergem hoje no Brasil vários impulsos orientados para a busca de uma agricultura mais sustentável, isto é com utilização racional de recursos, e eficiente. Pesam nessa busca, por exemplo, a capacidade de investimento dos agricultores; a disponibilidade de tecnologias e serviços – inclusive da telefonia de 5ª Geração – a preços acessíveis, e a criatividade de pesquisadores para encontrar soluções no plano da biotecnologia e na área de instrumentação e automação. Ao mesmo tempo, a agricultura de precisão acena com uma nova fronteira para empreendedores, trará oportunidades para o surgimento de startups que criem soluções pontuais, e novos espaços profissionais especializados.
Como surgiu. José Paulo Molin situa na década de 1980 o momento em que começa a se cristalizar uma mentalidade internacional sobre a agricultura de precisão, consolidada na década seguinte. A premissa básica é que uma área de plantio não é homogênea. “Se a lavoura não é uniforme, a maior parte do tempo eu erro, para mais ou para menos” (ao fertilizar ou cuidar) quando ela é tratada de maneira uniforme. “Eu não coloco a mais, nem a menos. Coloco a quantidade certa de fertilizante e tenho a maximização da eficiência do processo”, explica.
Ele constata que a agricultura de precisão praticada hoje no Brasil está concentrada no que chama de gestão de fertilidade do solo. Os projetos são atendidos por prestadores de serviços, que fornecem consultoria e pelas indústrias de máquinas e componentes eletrônicos. Mas isso ainda ocorre em pequena escala. A outra vertente é o tratamento fitossanitário, que visa manter a lavoura sadia. “Nessa área ainda não fazemos quase nada”, diz. O princípio é o mesmo da fertilização. “A lavoura não é atacada de forma uniforme.” Existem focos de doença, de pragas, de erva daninha. E isso tem que ser tratado localizadamente, que é a palavra-chave da agricultura de precisão.
Faltam diagnósticos. A principal deficiência é a falta de bons diagnósticos. “De diagnósticos bons, baratos e intensos”, isto é espacializados, para saber onde está o ataque, quem está atacando e o que fazer. Mas o diagnóstico depende da obtenção das informações do campo.
A tecnologia mais avançada para isso é aquela que registra os eventos em tempo real. Isso é feito com o auxílio de sensores, ou drones, por exemplo, que fotogravam e transmitem as imagens em tempo real. “Isso é muito bonito no mundo da fantasia, mas no mundo da realidade precisa existir a preços compatíveis com o que a agricultura pode pagar.” É um grande desafio, observa. O desafio está em duas frentes: desenvolver a tecnologia e viabilizá-la. É preciso identificar os eventos para tomar a decisão correta, mas a valores compatíveis com o mercado agro, “na agricultura tudo é reais por hectare e se não encaixa naquele ‘reais por hectare’, não entra”, assegura.
Gargalos. Um grande gargalo é a digitalização. “Estamos falando muito do digital, esses sensores, diagnósticos, ferramentas. O dado precisa subir e descer, precisa ser transformado em informação, que se transforma em conhecimento e este em decisão”. E pergunta: “a conectividade no campo existe? Não existe.”
Se há eletrônica embarcada na máquina que está no campo, essa máquina tem que ter conectividade com o servidor que está na sede da fazenda ou no escritório na cidade. Ele nota que hoje existem algumas empresas pioneiras, que começaram a investir em projetos próprios e fizeram sua internet. “Alguns exemplos, poucos, caros, que estão começando a dar resultado”. Esses projetos servirão de exemplos, acredita. “Mas o grosso da comunidade não vai tomar essa iniciativa por conta própria. Vai esperar que alguém o faça.” No cenário atual da telefonia no país essa tarefa caberia às operadoras da tecnologia de 4ª geração. Mas não há sinalização de que isso venha a ocorrer, avalia.
Há uma expectativa de que a telefonia de 5ª geração traga uma solução mais efetiva para o problema da conectividade. Os leilões da 5G devem ocorrer em 2021 ou 2022. Ela traria como recursos uma distribuição geográfica das torres mais adequada, maior alcance e maiores taxas de transferência de dados. Mas ele considera difícil fazer uma previsão de quando essa tecnologia poderá se transformar em conectividade para o campo, lembrando também que, até lá, a demanda deve aumentar exponencialmente. “Eu só sei que muita gente vai continuar desconectada por muito tempo, ou muito trator, muita colhedora vai continuar sem conexão”.
Startups. E quais são as oportunidades que surgirão com a expansão da agricultura de precisão? “Não sei se a gente pode chamar, genericamente, de oportunidades, mas (haverá) muitos desafios.” E explica:
Nenhuma das grandes corporações produtoras de insumos, da agroquímica, máquinas e sementes, está indo à procura do detalhe do detalhe. Elas estão esperando as startups acharem a solução do detalhe, depois elas vão lá e incorporam. Então, há muita oportunidade, mas há muito risco também, tem o risco de dar certo tecnicamente mas não economicamente. Hoje, considera, vivemos a “febre das startups”, que tem um lado bom e um lado de euforia. O resultado da euforia é que não cabem todos no mercado. O lado bom é que aquelas que avançarem e desenvolverem soluções vão se transformar em negócios. A questão é quem pagará a conta. “Só vão ter sucesso aquelas soluções que se encaixarem na demanda do mercado neste momento de evolução das lavouras”. As oportunidades estão nos gargalos existentes, que não serão resolvidos pelas grandes corporações, como desenvolver técnica e tecnologia para fazer diagnóstico, para tornar uma máquina mais eficiente, para ter conectividade mais rápida, mais personalizada para a agricultura. “Isso tem que nascer de pequenos esforços, que é o perfil das startups”.
Oportunidades. O profissional que vai atuar nesse cenário precisará ter base para o diálogo com outras áreas. Além da formação tradicional ele necessitará da visão da “transversalidade e habilidade para a multidisciplinaridade, coisa que nós ainda temos dificuldade de incutir nas pessoas e nos sistemas”. O agrônomo, argumenta, não entende e não vai ser treinado para fazer eletrônica, ou ciência da computação, mas terá que conversar com o profissional da ciência da computação para fazer um algoritmo para um aplicativo. “Eu não vejo uma startup com quatro agrônomos tentando fazer um software.”
Ao mesmo tempo, no ensino médio, começam a surgir formações específicas como tecnólogo em agricultura de precisão ou tecnólogo em big data para a agricultura, uma tendência que deverá se acentuar nos próximos anos.