No último dia 5 de dezembro, um encontro em Campinas reuniu profissionais da indústria da cana-de-açúcar para conhecer os resultados de um trabalho iniciado há quatro anos. O projeto SUCRE, sigla da expressão em inglês Sugarcane Renewable Electricity, soma pesquisas, análises e desenvolvimentos destinados a ajudar os agricultores a transformar a palha, resíduo da colheita da cana-de-açúcar, em eletricidade. O projeto revela o interesse de parte da agroindústria de se alinhar ao mundo da bioeconomia em uma área onde esse setor tem tudo para ser eficiente. Maior produtor mundial, o Brasil tem previsão de colher, na safra 2019/20, 622 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, CONAB, o que dá uma ideia do potencial dessa iniciativa, embora somente parte possa ser aproveitada.

Sustentabilidade. O Workshop aconteceu no Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), que integra o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). O LNBR tem um perfil exclusivo no cenário da agroindústria nacional e internacional pois suas pesquisas e estudos cobrem todo o ciclo de vida econômica da cana-de-açúcar: plantio, colheita, transporte e produção de álcool e açúcar, assim como o aproveitamento de resíduos. O foco está na sustentabilidade, isto é, leva em conta resultados econômicos, ambientais e sociais. No caso da palha da cana-de-açúcar, ela deixa a condição de resíduo que precisa ser descartado, para transformar-se em matéria-prima. Em conjunto com o bagaço da cana, a palha é queimada em caldeiras da usina para produzir energia elétrica utilizada pelas próprias instalações da empresa ou vendida, gerando receita adicional. A tarefa, entretanto, tem desafios técnicos já que a palha precisa ser processada para a queima na caldeira, junto com o bagaço. Ao mesmo tempo, aumentam as restrições legais contra uma prática tradicional na qual as usinas queimavam a palha no campo durante a colheita, já que isso contribui para a poluição ambiental.

Usinas. “A ideia desse projeto é disponibilizar informação que ajude as usinas a tomarem decisão para sua realidade”, explica Tassia Lopes Junqueira, pesquisadora da Biorrefinaria Virtual da Cana-de-açúcar, plataforma computacional do LNBR que usa a tecnologia da informação como ferramenta para solucionar problemas da agricultura. A “realidade” é diferente para cada usina e aí reside a complexidade da pesquisa. O projeto teve com interlocutores principais 20 usinas, algumas entre as maiores do país, que cobrem extensas áreas de plantio. Com base nas informações obtidas com esses parceiros, o BVC faz simulações e cruza uma série de variáveis. “Foram realizados estudos customizados para cada usina parceira, levando em consideração os parâmetros específicos destas, tais como área de produção de cana, produtividade, tipo de plantio e colheita, diferentes quantidades e métodos de recolhimento de palha, impactos na indústria e geração de eletricidade” explica. Os relatórios permitem ao agricultor avaliar alternativas econômicas e técnicas para o aproveitamento da palha. Mas os resultados do trabalho, observa Tassia, têm utilidade para as cerca de 400 usinas do país.

O projeto teve financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, de Global Environment Facility) e parceria do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Mapa da palha. Um dos desdobramentos do projeto SUCRE é o mapa do Brasil que mostra para a usina se a região onde está instalada oferece alta, média ou baixa aptidão para remoção da palha, e qual o impacto que a decisão trará para sua atividade. O Workshop mostrou também aos participantes a PalhaCalc, uma calculadora destinada aos agricultores que querem fazer uma primeira análise das condições para remoção e aproveitamento da palha. A calculadora faz simulações como o preço mínimo de venda da eletricidade gerada, a capacidade de geração da usina e as emissões de gases de efeito estufa evitadas com a bioeletricidade produzida. A tarefa de divulgar essas informações vem sendo realizada também com a edição de cinco cartilhas que apresentam os vários aspectos da bioeletricidade.

Panorama mundial. Com a experiência do projeto SUCRE, o LNBR abre uma frente importante para disseminar o uso sustentável de resíduos da agroindústria, demanda crescente no panorama mundial. O projeto teve financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, de Global Environment Facility) de cerca de U$ 7,5 milhões, e a parceria do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
A palha é um insumo também no trabalho do LNBR quando atua como grupo de pesquisa em busca de soluções para o etanol de segunda geração. “Nosso objetivo não é desenvolver uma rota do começo ao fim”, nota a pesquisadora, mas atuar em problemas específicos para ajudar o setor na melhoria desses processos. Entre eles o processo de pré-tratamento do bagaço e da palha da cana, necessário para quebrar as moléculas grandes que formam os tecidos desses resíduos, quando então é possível produzir o açúcar que vai gerar o etanol.