Entre a pesquisa científica com os bioativos da natureza, e o medicamento disponível na farmácia, existem vários pontos de decisão e operação para chegar a um fitoterápico viável comercialmente. O desafio do trajeto, neste caso, que envolve órgãos públicos em várias instâncias, é tornar o diálogo entre os atores mais ágil e efetivo, ou seja, resolver problemas de gestão.
A dificuldade em conectar os pontos explica o limitado sucesso das iniciativas para ampliar o número de fitoterápicos no país, detentor de grande potencial nesse campo, em razão da riqueza de sua biodiversidade, mas com resultados muito abaixo do esperado. O Sistema Único de Saúde (SUS) mantém hoje em sua oferta 12 fitoterápicos. O movimento ocorre, entretanto, em um cenário de expansão do mercado mundial desses produtos, com crescente aceitação dos usuários, sobretudo na faixa dos medicamentos sem prescrição médica (veja aqui, aqui e aqui)
A busca de um modelo mais eficiente é hoje a prioridade de Fabiana Frickmann, pesquisadora do Departamento de Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas, UFAM, e um dos gestores do programa Rotas da Biodiversidade. Programa de âmbito federal, com ações locais nos estados. Fabiana traz a experiência de integrante do sistema Redesfito, criada pela Fundação Fiocruz e dedicada a impulsionar o processo de inovação em fitoterápicos.

A escolha pela produção de medicamentos fitoterápicos atende a uma vocação regional, pela grande diversidade de plantas e conhecimento tradicional associado a elas.

No caso do Amazonas, a rota aposta em um novo modelo que, se bem sucedido, abre caminho para que o país aprenda a explorar esse potencial. A escolha pela produção de medicamentos fitoterápicos atende a uma vocação regional, pela grande diversidade de plantas e conhecimento tradicional associado a elas. Ao mesmo tempo, responde à necessidade de produtos mais baratos e disponíveis em grande escala para a população.
A primeira etapa teve início no ano passado, com as oficinas organizadas pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti). Elas reuniram representantes de mais de uma dezena de entidades: órgãos dos governos federal e estadual, universidades, agências de fomento e institutos de pesquisa (veja aqui). Optou-se pelo uso da metodologia Canvas de modelagem de negócios, como forma de acompanhamento e agora o trabalho encontra-se na fase de análise de viabilidade dos candidatos a fitoterápicos.
A análise leva em conta vários requisitos. A planta em questão deve ter um certo grau de comprovação técnico-científica de sua efetividade, através de estudos e bibliografia da pesquisa, o que facilita o processo de registro na Anvisa. Precisa ter uma cadeia produtiva estabelecida no Amazonas, mantida de forma sustentável e constante, de forma que a continuidade do fornecimento não se altere. Ao mesmo tempo, o medicamento tem que responder às necessidades de saúde do Estado. O mais provável, explica Fabiana, é que sejam definidos fitoterápicos para as doenças de maior incidência, como hipertensão, diabetes, asma, ou também as chamadas doenças negligenciadas, como leishmaniose e malária. Deve, também, cumprir os requisitos de segurança do usuário e mostrar condições de produção que resultem em preço competitivo.
Vencidas essas etapas será necessário definir os responsáveis pela industrialização. E aqui abrem-se alternativas, avaliadas com o auxílio de consultorias. Entre elas estabelecer acordos com órgãos públicos, como o Instituto Farmanguinhos, ou desenhar parcerias com empresas privadas do setor farmacêutico.
Os recursos para desenvolvimento do programa são assegurados por diversas fontes. Entre elas os três ministérios que integram o programa, Desenvolvimento Regional, Meio Ambiente e Saúde. Mas há parcerias e apoio de instituições da área de CTI, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) e Embrapa, além de duas entidades ligadas ao empreendedorismo, Centro de Referências em Tecnologias Inovadoras (Certi) e Sebrae.